Abertura da Temporada 2019.2 de Eventos do Grupo Texto Livre UEADSL2019.2 Apresenta: Teatro das Conferências Convidadas Entrevistada: Maria Geralda das Graças Silva Entrevista: Ana Matte Edição: Iúna Fricke Maria Geralda: Tem que ser contada mesmo a história dela. Ana Cristina: Isso foi uns 50 anos atrás, Dona Maria? Maria Geralda: É, foi 1964, 65, por aí, Ana, que eu nasci em 53 e eu tinha 10 anos, então em 62, 63, por aí. Eu morava numa fazenda que se chamava Fazenda do Dr. Lalau. A gente trabalhava capinando, né, cortando cana, capinando... Ana Cristina: Trabalhavam e moravam na fazenda? Maria Geralda: Nós trabalhava e morava lá na fazenda. Ana Cristina: E comprava as coisas na venda? Maria Geralda: Na venda de lá e a venda era o dono lá chamava João Caria, ele era administrador e tinha a venda, que, todo mundo que trabalhava nessa fazenda tinha que comprar lá. E aí essa moça, que chamava Dona Preta, nós chamava ela de Dona Preta, ela veio desse arraiazinho e falou que queria cuidaar, ajudar, dá uma sabedoria pras crianças, que ela já tava cansada de vê eles lá trabalhando, fazendo as coisa e nunca tinha nada, era só trabalha. E aí ela sofria junto com a gente, porque ela passava, lá onde ela dava aula chamava Tuia, ela ia dá aula, não tinha cadeira, nem nada não. Ela arrumava, forrava o chão, os menino sentava, ela dava uma foia de cadereno pra cada um e ia escrevendo, ela ia falando e eles ia escrevendo o que ela falava. Ana Cristina: Era só os meninos? Maria Geralda: Era só os menino homem, algum, não, tinha umas duas menina que os pais deixava, o resto não deixava porque os dono da fazenda não permitia, né, não deixava ir. Ana Cristina: Conta pra gente como foi, o seu irmão estava estudando com ela? Os seus irmãos? Maria Geralda: Os meus dois irmãos, o Juca e o Quinzinho estudô com ela. Ana Cristina: E como? Maria Geralda: E aprenderam a ler e escrever. Só assim, não tem série, né, mas e agora, depois que veio de lá do interio, que eles estudo aqui que deu série pra eles, mas o que eles aprenderam foi com ela. No que ele conversou lá com ela, chegou em casa e falou que a gente queria, eu, ele, o outro irmão, ia trabalhá e dá o dinheiro na mão da minha mão da minha mãe, pra minha mãe fazer compra fora, e deixá só o dinheiro do meu pai pra pagá lá na vendinha. Aí, e aí aconteceu isso, e é ela que expricou pra ele como é que era pra faze, né, e aí elel chegou em casa e falou pra minha mãe e minha mãe começou, e aí no sábado ela começou a fazer a compra. Quando já tinha um mês, mais ou menos, que o dono da fazenda descobriu, e aí ele não deu mais serviço, nem pra mim, nem pra meus dois irmão, só ficou meu pai trabalhando. E aí meu irmão pegou e saiu pra fora, e ela, a Dona Preta, falou com ele que que era pra ele fazer, orientou ele, e aí ele saiu pra uma outra fazenda e pediu, arrumou serviço pra gente poder trabalhar. E aí que foi melhorando a vida da gente, todo lá, sabe, tinha até o que comer. Ana Cristina: Vocês ainda moraram na fazenda? Maria Geralda: Na fazenda, né, só que quem trabalhava na fazenda era só meu pai. Ana Cristina: E quando vocẽs que saíram de lá? Maria Geralda: Aí, bem, nós saímos, foi, quando a gente, meu irmão Quinzinho que era o mais velho e a gente foi e comprou uma casinha e foi ela, a Dona preta, que ensinou como que era pra fazer, era casinha, na época chamava Casa Popular. Aí a gente comprou. Meu pai comprou uma casinha popular pequenininha, mas comprou. E aí que a gente saiu de lá dessa fazenda. E fomos pra uma cidadezinha perto de onde ela morava. Ana Cristina: E vocês tinham que pagar alguma coisa pra ela? Maria Geralda: Não, não pagava nada não, ninguém pagava ela nada não, ela vinha voluntariamente, ela nem era professora formada, não. É porque naquela época quem tinha quarto ano primário podia dá aula, né. Ela deve ser filha de algum fazendeiro lá, pessoas boa, né, e que quis ajuda os de cá, sabe? E aí, depois que a gente mudou de lá, nunca mais eu vi ela, mas eu ouvi falar que ela continuou lutando. Na minha época ela não era professora formada, mas depois ela formou professora e tudo, e foi até diretora de um colégio bom que tinha numa cidade lá perto. Aí meu irmão falou que a gente foi, que ela foi uma grande pessoa na nossa vida lá, se nós tivesse ficado lá, nós nem sabia como é que ia ser. Nós não tem grande coisa, não, mas nós aprendeu muita coisa, muita sabedoria com ela, sabe? Educação, que ela ensinou pra gente, muita coisa boa. Ela ia todos os dias dar aula lá. E aí ela não tinha condição de ir de carro, nem de ônibus, aí ela ia a cavalo. E o pessoal, o dono da fazenda, era mau, e não queria que o pessoal aprendesse nem ler, nem escrever, pra poder trabalha. E ela vivia lutando pra poder ensinar. E aí ela fazia tudo, ia nas casa e tudo, e eles era... sabia que ela ia ajudar eles, né, e aí eles faziam ruindade com ela, eles amarravam a porteira pra ela não passar. Ela deixava o cavalo do lado de cá da porteira, eles ia e soltava o cavalo dela, ela tinha que ir embora a pé e os menino levando ela. E esse fazendeiro, ele tinha um filho que era muito mau, ele corria atrás dela com chicote pra ela não vir no outro dia, mas ela não desistia. Ela não desistia! Ela falava com ele que ela era mais forte do que ele e aí vinha no outro dia, e soltavam o cavalo dela. O cavalo chegava lá e o pai dela vinha encontrar. Via o cavalo chegando e e ela não chegava, né, eles ficava preocupado. e ela lutou por nós, sabe? Nó! Foi uma bença na vida nossa, viu? Essa Dona Preta. E eu não sei o nome dela. Porque a gente nem procurava saber, de tão, né, a gente era tão bobo (risos) nem procurava saber. Dona Preta, Dona Preta, né? Tem que ser contada mesmo a história dela. Licença: Creative Commons By-Sa Vídeo editado usando os softwares livres: Kdenlive, Gimp, LibreOffice, Ubuntu http://textolivre.pro.br